Os Sertões – Análise histórica

junho 1, 2007

Por: Rodolpho José Del Guerra     

O livro Os Sertões, quase todo escrito em São José do Rio Pardo (pelo menos 75%), foi, no dizer de Euclides da Cunha, “escrito nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante”.

    É uma obra difícil: vocabulário incomum, assuntos áridos, temas científicos, necessitando-se do dicionário e de bibliografia paralela. A cada leitura de Os Sertões, descobrimos coisas novas, que passaram despercebidas na análise anterior.

    N’Os Sertões, Euclides se mostra como cientista e artista; o cientista é o engenheiro, o bacharel em matemática, ciências físicas e naturais; o artista é o poeta, o sonhador, o estudioso sensível, “que se lançou à Escola da Praia-Vermelha”. Como cientista, ele nos informa com a precisão de um sábio versátil; como artista, ele nos convence e nos encanta com suas palavras transformadas em cores, formas, movimentos, sentimentos…

    Este resumo tem a finalidade de preparar o pequeno aluno e o iniciante estudioso de Euclides para a leitura da grande obra, dividida em três partes: A Terra, O Homem, A Luta.

        I. A TERRA

    Aqui, vejo Euclides como um diretor de teatro, verificando o grande palco, para apresentar sua peça brasileira. O palco é o sertão da Bahia. Localiza-o e preocupa-se com todos os detalhes do cenário, em constante mutação, com córregos e rios que secam ou transbordam; com tempestades que se formam em paraíso, dando lugar à flora tropical… Analisa todos os detalhes antes de fazer entrar em cena muitos personagens diferentes, e os soldados das quatro expedições para se iniciar a luta.

    E começa o espetáculo, apresentando o planalto central nesta primeira parte do livro, com seus diferentes relevos: no sul litorâneo, as maiores altitudes; em Minas Gerais, as montanhas mais altas entram pelo interior e, caminhando para o norte, na Bahia, o aplainamento geral. Nesta região, está o sertão, com uma ondulação de montanhas baixas, limitado pelo rio São Francisco ao norte e ocidente e, ao sul, pelo rio Itapicuru.

    Desconhecido e sempre evitado, esse sertão tem um solo seco, sem umidade, estéril, queimado pelas secas e um clima hostil. Euclides escreve: “(…) tem a impressão persistente de calcar o fundo recém-sublevado de um mar extinto”.

    Alguns rios que o cortam transbordam nas chuvas e somem nas secas, deixando, de longe em longe, algumas poças de água no seu leito. O mais importante deles é o Vaza-Barris que, numa de suas curvas, banha Canudos, rodeada de montanhas.

    O clima do sertão é instável: dias tórridos e noites geladas. O ar é seco e essa secura foi descrita em “Higrômetros singulares”. Num trabalho de 1974, a professora Célia Mariana Franchi Fernandes da Silva escreveu: “(…) os cadáveres de um soldado e de um cavalo, mortos na peleja, depois de três meses estavam ainda em perfeito estado, apenas ressequidos como múmias”.

    As secas são cíclicas e assolam a região. Dizem os caboclos que se as chuvas não vierem de 12 de dezembro a 19 de março, haverá seca o ano todo.

    A travessia da caatinga, com sua vegetação resistente, com suas árvores sem folhas, com espinhos e “os gravetos estalados em lanças”, é “mais exaustiva que a de uma estepe nua”. Na caatinga estão os cajuís, macambiras, caroás, favelas, juazeiros, xiquexiques…, sendo algumas dessas plantas reservatórios de água.

    Quando vem a tormenta, o sertão se transforma em paraíso: ressurge a flora, com seu verde, suas flores exuberantes à beira das cacimbas. Ressurge a fauna: catitus, queixadas, emas, seriemas, sericóias, suçuaranas…

    No final da primeira parte, Euclides comenta que os sertões do norte não se enquadram em apenas uma categoria geográfica do filósofo alemão Hegel, ou seja: no verão, vestem-se de “estepes de vegetação tolhiça, ou vastas planícies áridas”; no inverno, com as chuvas, transformam-se em “vales férteis, profusamente irrigados”. No sertão, as duas categorias se apresentam numa mesma estação.

    No capítulo “Como se faz um deserto”, o autor cita o homem assumindo “em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos”, através do fogo, das queimadas. E apresenta a solução: açudes, que aumentarão a evaporação e as chuvas, como fizeram os romanos em Cartago.

        II. O HOMEM

  Nesta segunda parte, os personagens entram em cena: jagunços, sertanejos, o Conselheiro…, isolados há séculos no sertão, o que provocou sua estagnação cultural.

    Levados pelo texto, adentramos Canudos e, com a multidão, vamos participar de suas tradições, danças, desafios, e da sua religião mestiça. Euclides da Cunha estuda a gênese, a formação do brasileiro, resultante dos cruzamentos entre o indígena, o negro e o português. Desta mistura, por muitos motivos, não resulta um tipo étnico único para o Brasil: “(…) não temos unidade de raça”.

    Historicamente, os cruzamentos entre portugueses e negros se realizaram no litoral, porque o negro vinha para o trabalho escravo nos canaviais da costa brasileira. Entre portugueses e índios, realizaram-se no sertão, pois os gentios se refugiavam no agreste do interior, avessos ao trabalho por razões culturais.

    Para o estudo da formação étnica do sertanejo, Euclides estuda o povoamento das regiões banhadas pelo rio São Francisco. O sul foi povoado pelos bandeirantes; a região média, pelos vaqueiros, e no norte seco, pelas missões jesuíticas.

    As cidades que margeiam o sertão de Canudos são originárias de missões e aldeamento de índios, como atestam seus nomes: Panibu, Patamoté, Uauá, Bendegó, Cumbe, Jeremoabo… Seus habitantes resultam de cruzamentos, com predominância do índio sobre o branco e sobre o negro.

    Isolados pelo deserto, sua mestiçagem foi uniforme. Embora a mistura de raças diferentes seja prejudicial, os sertanejos formaram uma raça forte.

    O isolamento de um povo fortalece a espécie, mas é fator determinante da estagnação, provocando o atraso, o conservadorismo, a igualdade de pensar, de sentir, de agir… O isolamento torna-se retrógrado, mas não degenerado.

    (Abro parênteses para esclarecer que não só Euclides foi criticado por erros como os que se seguem: os males do cruzamento, os esmagamento total das raças fracas… Outros autores o foram. Euclides se baseava na teoria racial do final do século XIX, que afirmava ser a raça branca sinônimo de progresso, condenando a miscigenação…)

    “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. A sua aparência, entretanto, (…) revela o contrário. (…) É desengonçado, torto. (…) Reflete a preguiça invencível, (…). Basta o aparecimento de qualquer incidente (…) transfigura-se. (…) reponta (…) um titã acobreado e potente (…) de força e agilidade extraordinárias.” Veste-se de couro, protegendo-se dos espinhos da caatinga. É vaqueiro. Sua cultura respeita antiquíssimas tradições. Torna-se um retirante, impulso pela seca cíclica, mas retorna sempre ao sertão.

    Sua religião, como ele, é mestiça. O catolicismo atrasado se mistura aos candomblés do índio e do negro e se enche de superstições, crendices e temores medievais, conservados pelo isolamento, desde a colonização. Ele é crédulo, supersticioso, e esse deixa influenciar por padres, pastores e falsos profetas…   

    Neste ambiente, surgiu Antônio Conselheiro, que absorveu as crenças do seu meio. Fixou-se em Canudos com seus seguidores, que acreditavam na certeza de ir para o céu se mortos em combate, defendendo uma causa sagrada.

    O Conselheiro, Antônio Vicente Mendes Maciel, nasceu em Quixeramobim, no Ceará. Trabalhou com o pai comerciante, que morreu ao se desentender com os Araújos, seus inimigos. Depois dos casamentos das irmãs, ele se casou logo se desiludiu com a traição da companheira. Envergonhado, mudou-se, sem se fixar: Sobral, Campo Grande, trabalhando como caixeiro e escrivão de juiz. Em Ipu, fugiu-lhe a mulher, acompanhando um soldado. Em Paus Brancos, alucinado, feriu um seu parente que o hospedara…

    Desapareceu. “Morrera por assim dizer”.

    Reapareceu dez anos depois, nos sertões de Pernambuco e em Itabaiana (SE), em l874, impressionando os sertanejos: alto e magro, barba e cabelos desgrenhados e longos, túnica de brim americano azul, com uma corda na cintura, sandálias, alforje e chapéu de couro, ele pregava nos povoados uma doutrina confusa, que se misturava às rezas de dois catecismos que carregava “Missão Abreviada” e “Horas Marianas”. Pregava o fim do mundo, a preparação para a morte, a penitência… A multidão o seguia, sem que ele a convocasse. Fazia prédicas e profecias, casamentos e batizados, reconstruía igrejas, muros de cemitérios… O clero o tolerava e procurava, deixando-o pregar, até mesmo contra a República, que interveio em áreas regidas pela tradição e reservadas à religião. Como aumentasse seu ataque, a Igreja tentou interrompê-lo.

    Em Bom Conselho, reuniu o povo num dia de feira e queimou as tábuas dos impostos, discordando das leis republicanas do governo de Satanás. O acontecimento repercutiu e a polícia reagiu. Perseguido, o Conselheiro tomou a estrada de Monte Santo, defrontando-se com a tropa em Maceté. Os 30 praças armados atacaram. Os jagunços os desbarataram.

    O Conselheiro – conhecedor do sertão – e seus seguidores tomaram o rumo do norte. Chegaram a Canudos, em 1893, uma fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris. “Era o lugar sagrado, cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito”(…) “O arraial crescia vertiginosamente, coalhando as colinas”, sem ordem, sem ruas: um verdadeiro labirinto, com casa de pau-a-pique, habitadas por um população multiforme, de sertanejos simples, beatas, ricos proprietários que abandonavam tudo em busca da salvação e por bandidos ali protegidos, que respeitavam as regras: rezar e fazer sacrifícios para alcançar a vida eterna. A igreja, uma fortaleza, a mais importante obra do Conselheiro, estava diante da praça. Euclides descreveu a lei mantida por facínoras, as rezas, os sermões, as danças, o dia-a-dia do aglomerado e os tipos fascinantes dos heróis: João Abade, Pajeú, João Grande, Vila Nova, Chico Taramela, Macambira, Beatinho…

    Antônio Conselheiro pregava contra a República, contra o governo do Anti-Cristo e da lei do cão. “Mas não traduzia o mais pálido intento político”. Os jagunços, “rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa”, não conseguiam diferenciar a República da Monarquia.

    (Abro aqui um novo parêntese: algumas mudanças da nova ordem respingavam no sertão: separação Igreja-Estado, obrigatoriedade do casamento civil, cobrança de impostos pelos Estados…: coisas incompreensíveis pelos sertanejos).

    E o povo versejava e cantava;

    “Casamento vão fazendo/ Só pro povo iludir/ Vão casar o povo todo/ No casamento civil”.

    “Visita nos vem fazer/ Nosso rei D. Sebastião/ Coitado daquele pobre/ Que estiver na lei do cão”.

    “Eram realmente, fragílimos, aqueles pobres rebelados…”

    “Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta.”

    “Entretanto enviamos-lhes (…) a bala”.

        III. A LUTA

    Os caminhos e montanhas que volteavam Canudos estavam fortificados.

    O Conselheiro reinava naquela comunidade, dormindo sobre tábuas, pregando, alimentando-se com farinha…

    Em outubro de 1896, o juiz de Juazeiro (BA) recusou-se a entregar a madeira encomendada para a construção da igreja nova de Canudos. O Conselheiro ameaçou invadir a cidade. Foi pedido reforço ao governo.

    1ª Expedição. Em novembro de 1896, foi enviada um pequena expedição, com 104 soldados, comandados pelo Ten. Pires Ferreira. Dia 21, os jagunços os encontraram em Uauá. A tropa retrocedeu, atacada com facões, bacamartes e aguilhões de vaqueiro, e apavorada com os gritos e vivas dos conselheiristas.

    Foi o prelúdio da guerra sertaneja.

    2ª Expedição. o major Febrônio de Brito comandou essa expedição, com 543 soldados, 14 oficiais e 3 médicos, saindo de Monte Santo, em 12 de janeiro de 1897. Sem conhecer a guerra nas caatingas, a tropa foi inesperadamente atacada na estrada que atravessa a Serra do Cambaio. O sertanejo atraía os soldados para a caatinga, que os feria, exaurindo-os. A munição acabava, obrigando a tropa a voltar a Monte Santo. Apesar de 415 jagunços mortos, este segundo insucesso militar provocou impacto nacional.

    3ª Expedição. Partiu do Rio de Janeiro, com 1.300 homens, em 3 de fevereiro de 1897, comandada pelo Cel. Moreira César. Dia 2 de março, sem um plano tático, a tropa entrou e atacou o arraial, perdendo-se naquele labirinto. Moreira César foi mortalmente ferido, com duas balas, morrendo no dia seguinte. Foi substituído pelo Coronel Pedro Nunes Tamarindo. A tropa fragmentou-se, dispersou-se, debandou em pânico, desfazendo-se de armas e munições, recolhidas pelos jagunços. O corpo de Moreira César foi jogado no caminho. Quando atravessava o córrego de Angico, querendo conter seus homens, o Cel. Tamarindo foi morto. Morreu, também, o comandante, Cap. José Agostinho Salomão da Rocha. Comoção nacional. “A República estava em perigo”.

    4ª Expedição. Sob o comando do General Artur Oscar, organizaram-se em 5 de abril de 1897, as forças dessa expedição; 4 brigadas em 2 colunas, com 4.283 soldados. Com roteiros diferentes, as duas colunas encontrar-se-iam em Canudos.

    A 2ª coluna, comandada pelo general Cláudio do Amaral Savaget, com 2.350 homens, partiu de Jeremoabo (SE), em 16 de junho, chegando a Canudos pela Serra de Cocorobó ao norte, onde venceu os jagunços.

    A 1ª coluna, comandada pelo general Artur Oscar Andrade Guimarães, seguiu pelas estradas de sempre, partindo de Monte Santo (BA) , em 19 de junho, com 1.933 soldados. foi atacada no Morro da Favela. Depois de insucessos e ataques juntou-se à 2ª coluna.

    Os sertanejos foram encurralados em Canudos, resistindo à superioridade de homens e armamentos, sob os tiros da matadeira (canhão) e de dinamites.

    Faltaram víveres aos soldados. Para alimentá-los muitas rezes e cavalos foram mortos na região. Logo o Ministro da Guerra, Carlos Machado Bittencourt, os abasteceu.

    Completou-se o cerco de Canudos, com jagunços enfrentando fome e sede, bombardeios e incêndios.

    Dia 22 de setembro de 1897, uma disenteria quase dizimou os fiéis, matando Antônio Conselheiro. Os sobreviventes defendiam a Aldeia Sagrada.

    Caiu Canudos, em 5 de outubro de 1897, “ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados. (…) No dia 6 acabaram de destruir desmanchando-lhes as casas, 5.200, cuidadosamente contadas. (…)”

    “Antes, no amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro. (…) Desenterraram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa (…)! Fotografaram-no depois. (…)”. Cortaram-lhe a cabeça. “Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. (…) Ali estavam (…) as linhas essenciais do crime e da loucura…”

 

Para ler esta obra on-line acesse: http://www.culturabrasil.org/sintesedeosertoes.htm


Os Miseráveis: mensagem humanista

junho 1, 2007

Por: Manoel de Lencastre

Em toda a obra literária de Victor Marie Hugo há uma mensagem de fundo humano, talvez única. No romance Os Miseráveis (começado a ser redigido em 1845 e só terminado em 1861; mas publicado logo no ano seguinte) o escritor eleva-se a um patamar raras vezes atingido por qualquer dos principais mestres das letras universais. Victor Hugo conduz-nos, como leitores, à situação social chocante da França que emergiu depois da derrota de Napoleão em Waterloo. Choca-nos, na sua descrição dos acontecimentos que expõem todas as facetas da alma humana, quando o conflito a incendeia. Em Os Miseráveis, o conflito é permanente.
Pegar neste romance é tirar um curso das mil facetas do sentir dos homens, é aprender a conhecê-los, na sua cobardia e na sua grandeza, na sua capacidade para sofrer, mas também para ferir, na sua ambição, na sua generosidade e na sua fraqueza perante valores materiais, na sua ignorância, na sua quase impossibilidade victor_hugo-cossette.jpgde fugir ao chamamento individualista que o martiriza desde o princípio da grande aventura no mundo.
O cadastrado Jean Valjean possuía qualidades que ele próprio desconhecia. Mas à saída do presídio ainda não passava de uma fera que o sistema prisional esperava que regressasse com novos crimes às costas. Entretanto, o bispo que recusa denunciá-lo pelo furto de dois candelabros de prata e acaba por oferecê-los para afugentar esforços policiais, surge-lhe no caminho como homem de Deus, dá-lhe uma lição de solidariedade e trata-o como filho. Logo aqui, Victor Hugo demonstra o seu apego ao que tem como grandes valores da alma humana – essencialmente, quando ela se reduz perante a superioridade de um gesto generoso e desinteressado.
Valjean, diminuído e engrandecido pela ação do bispo que o salvou, partiu para novas paragens onde acabaria por encontrar-se na situação de homem industrial que, evidentemente, não podia deixar de explorar os operários que o serviam. Também aqui, Victor Hugo foge ao conflito de classes e, fiel a si próprio, dá-nos a imagem bondosa e solidária de um bom patrão que, tendo sofrido, sabia avaliar as dores que vinham de fora, mas ignorava aquelas que se criavam no interior da sua própria fábrica. Porém, desolado perante o drama de uma das suas operárias que recorre à prostituição para tentar defender e sustentar a criança de que é mãe (Cosette), decide salvar essa criança, mas já não vai a tempo de impedir a morte da mãe.
A justiça, entretanto, persegue-o. Javert, o inflexível e persistente agente policial, desconfia daquele que é, agora, “Maire” da autarquia local. Para este, entretanto, tudo o que importa é a salvação de Cosette que a mãe confiara à guarda do casal Thenardier. Estes são simplesmente escroques que escravizam a pequenina e a forçam a trabalhos impróprios para a sua tenra idade. Possuem relíquias do campo de batalha de Waterloo onde se apropriaram de despojos e não hesitaram em saquear os bolsos dos soldados mortos. Apercebendo-se da “qualidade” dos Thenardier, o “Maire” resgata Cosette contra uma soma importante, mas cria novos inimigos. Decide, então, aproveitando a considerável fortuna que já possui, reentrar em fuga e iludir Javert que nunca deixa de persegui-lo.
Para Victor Hugo, o homem que decide fazer o bem quando outros não recuam no intuito de fazer-lhe mal, tem de ser uma figura poderosa. O verdadeiro Jean Valjean nunca seria capaz de arrostar com as trágicas situações que lhe surgiram se, efetivamente, não possuísse riqueza. Aqui, Victor Hugo mostra-se cativo da ambição que vive um pouco em todos nós – sermos poderosos para defendermos os que não podem fazê-lo por si próprios. Para criar Cosette e dela fazer uma “menina”, o ex-forçado recorre a novas identidades e a meios de fortuna sempre abundantes.
Mas Cosette descobriria o amor em Marius, um jovem oriundo de famílias aristocráticas que, entretanto, não era estranho aos meios revolucionários parisienses. Ao descobrir que o amor de Cosette não podia ser combatido, Valjean, apesar da presença de Javert, vai retirar Marius das barricadas e transporta-o, bastante ferido, através dos esgotos de Paris conseguindo, a grande custo, iludir o sempre inflexível agente. É nestas circunstâncias que surge a figura do pequeno parisiense, Gavroche, figura iniludível de rapaz das ruas que está com a revolução e por ela morre com um sorriso nos lábios. Na descrição de Gavroche e das condições em que existe, Victor Hugo demonstra com toda clareza e com rara imponência o seu amor à humanidade e à cidade de Paris.
Evidentemente, Javert acaba por convencer-se de que toda a sua perseguição de décadas não passa de um crime contra “um homem de Deus” e suicida-se. Jean Valjean morre com Marius e Cosette junto a si. Mas os candelabros sobrevivem a todo o drama.


Cem anos de solidão

junho 1, 2007

Por João Pedro da Costa 

Eu sei que está na moda desdenhar o CEM ANOS DE SOLIDÃO de Gabriel García Márquez. Afinal de contas, este é um daqueles clássicos que tiveram (e continuam a ter) uma demolidora adesão popular – calcula-se que a obra tenha vendido mais de 30 mimagem-cem-anso.jpgilhões de exemplares nos 35 idiomas em que foi traduzida -, é um livro «cool» e «divertido», que se presta a uma razoável amplitude de leituras, é daquelas obras que são usadas como sinais exteriores de cultura e tudo isso incomoda muita gente que prefere citar livros porventura mais obscuros ou inacessíveis como, sei lá, O HOMEM SEM QUALIDADES de Musil, o ULISSES de James Joyce ou A VIDA, MODO DE USAR de Georges Perec (atenção, tudo livros geniais). Trabalhei durante três anos em duas livrarias e lembro-me que havia sempre algo que anoitecia em mim, quando uma «tia» me dava sinais de hesitação entre a compra da obra máxima de Gabriel García Márquez e o FERNÃO CAPELO GAIVOTA de Richard Bach (pffff…). Ninguém está a ver este tipo de dilema com A PESTE de Camus ou a ALEGRIA BREVE de Vergílio Ferreira…

Ora aí vai um lugar comum: CEM ANOS DE SOLIDÃO foi um livro que mudou a minha vida. Li-o aos 19 anos, em dois dias intercalados por uma noite de insónias povoada pelos espectros do coronel Aureliano Buendía, de Úrsula, de José Arcadio, dos irmãos gémeos Segundo, de Pilar Ternera, de Amarante, de Rebeca, de Melquíadas e do menos referido (mas para mim fascinante) Maurício Babilónia. De vez em quando releio-o, mas nem sequer posso dizer que é a obra que mais reli do autor columbiano (esse epíteto vai ou para CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA ou para O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA). Ando há três dias a reler CEM ANOS de SOLIDÃO e é incrível como o romance não perdeu nem um pouco do encanto que senti quando o li pela primeira vez. Pelo contrário, acho que estou a adorá-lo mais do que nunca. É extremamente difícil para mim (ou assombrosamente fácil, o que vai dar ao mesmo) escolher em particular uma passagem que possa exemplificar o domínio que Márquez possui da técnica narrativa, mas resolvi escolher a que se segue porque a considero uma das mais brilhantes utilizações da focalização interna de uma personagem: estou a falar do massacre dos três mil grevistas da companhia bananeira na estação de comboio de Macondo e da forma como José Arcadio Segundo «vê» a chacina perpetuada pelo Exército.


Tentativa de critica ao Ensaio sobre a Lucidez

maio 31, 2007

ensaiosobrelucidez.jpg

Por www.amnesia.webblog.com.pt 

Muitas das vezes que penso em escrever sobre determinados temas perco rapidamente a vontade, há uma quantidade de pessoas que se exprimem melhor do que eu, conseguem fundamentar bem o que escrevem e principalmente fazem-no de uma maneira clara e objectiva. De qualquer maneira vou tentar. 1º tentativa –José Saramago e o Ensaio sobre a Lucidez Li praticamente todos os romances do Saramago e tenho uma grande admiração por ele como escritor, como pessoa estou completamente nas tintas para as suas ideias e convicções políticas. Não vou gostar menos da sua obra por não concordar com este ou aquele ponto de vista e penso que esse é o principal problema de quem o critíca. O que mais admiro em Saramago são as ideias base que dão origem aos seus romances, o desenvolvimento é outra história muitas vezes é conseguido outras não. No caso do Ensaio sobre a Lucidez o ponto de partida não poderia ser melhor, a capital do pais com uma votação esmagadora de votos em branco e como o poder político e a população reagem a tal cenário. Agora é preciso desenvolver a ideia e encontrar um bode expiatório para tal votação, a senhora que não cegou no Ensaio Sobre a Cegueira foi a escolhida. Parece-me a mim um tanto “martelada” mas tudo bem, o desenrolar dos acontecimentos e principalmente o muito bem conseguido inspector tornam difícil parar de ler o livro. Acontece que normalmente os livros têm um fim e para mim o Saramago não me convenceu, percebo que as coisas fiquem em aberto com uma ligeira ideia que o sistema acaba por levar a melhor mas fez-me lembrar um pouco um final cinematográfico, desculpem a heresia, de um filme de acção de Hollywood (aliás o Ensaio Sobre a Lucidez presta-se a isso), estava sinceramente à espera de mais.


Em busca do personagem principal

maio 31, 2007

Por Mauro (www.carreirasolo.org)

Rodion Raskolnikov era um garoto da província, que veio a cidade grande terminar seus estudos. Sempre compenetrado e atento, esbarra numa teoria que pode revolucionar sua maneira de viver. O fim do século XIX foi o tempo das teorias. Mas, de repente, não era o momento certo para se viver. Pelo menos para o Rodion. Pobre e faminto, numa condição límbica de ex-estudante, vivendo num porão, resolve por em prática o tema de um artigo seu, que separa os homens em dois grandes grupos: aqueles que têm coragem de passar por cima das convenções e assim realizar grandes coisas e os outros, piolhos, que apenas vivem presos a leis, bons costumes e a moral. Ele não quer ser preso. Às convenções, é melhor dizer.

crinme.jpg

Antes de saber disso, portanto, resolve cometer seu crime, visando obter algum recurso financeiro para iniciar a vida. No entanto, infâmia!, é surpreendido pelos pintores que trabalhavam no andar abaixo. Foge sem levar nada de real valor. E o que leva, deposita embaixo de uma pedra. Depois disso, Rodion percorre o mundo das mazelas, desmaia na delegacia levantando suspeitas sobre seu envolvimento no acontecido, conhece Sônia primeiro por seu pai, Marmielanov, depois pela Madrasta, meu personagem preferido, a Katerina, e finalmente por ela mesma. Reencontra a mãe e a irmã, conhece o noivo desta e o detesta. Debate-se ideologicamente com seu grande amigo Razumikin…o tempo inteiro. Dá os 35 rublos para o funeral do pai de Sônia. Aliás, a cena do banquete fúnebre é a melhor, com EKaterina falando sem parar, e o leitor dentro de sua cabeça e pulmões, sofrendo com falta de ar ao ler, tanto quanto a tísica sofre para lembrar que já foi nobre e dançou para o Governador, tem o diploma como prova.

Enfim, depois de muito lutar, ele confessa para si mesmo, o que todos já sabiam. O que Porfiri já sabia, o que Dúnia já sabia, o que Razuminkin já sabia, o que Svridigáilov, ao dar o tiro na cabeça, já sabia, o que Lisavieta foi a primeira a saber….a morte? Não…nada disso…ele falhou em sua teoria. Não passa de um piolho com todos os outros. Enfim, vai para a Sibéria e quando, sentado na ponte do Rio próximo ao seu local de trabalho, sua culpa acaba, numa remissão frente ao amor de Sônia, acaba também o livro.


MADAME BOVARY – Mulher de fases dos século XIX

maio 31, 2007


por Giselle Marques

Se não fosse um romance realista do século XIX ambientado em pequeninas, monótonas e rurais localidades do interior da França, Madame Bovary poderia ser uma história atual de uma mulher quase normal, com transtorno bipolar ou uma tensão pré-menstrual presente todos os dias, com direito a altos e baixos constantes. Se Emma Bovary fosse personagem do século XXI, com certeza estaria fazendo terapia e tomando drogas fortíssimas para controlar o humor. Emma é uma mulher que nunca sabe o que quer. Que quer tudo e que não valoriza quase nada do que tem. Uma problemática bem elaborada pelo autor, Gustave Flaubert, que demorou cinco anos para concluir a obra e que foi acusado de ofensa à moral e à religião por abordar o adultério, o desejo e os caprichos femininos dentro da rotina do casamento entre uma bela donzela e um médico emergente.

Dois pré-requisitos são necessários para iniciar a leitura da obra de Gustave Flaubert: paciência e envolvimento. A linguagem extremamente trabalhada e descritiva pode sufocar os mais afoitos, já que os fatos acontecem lentamente, sendo interrompidos por bucólicas descrições da paisagem, do tempo, do vestido de Emma, suas rendas, seus caprichos e seu marido apaixonado e tedioso. Afinal, é um romance comprometido com a realidade e há momentos em que é até possível “sentir o cheiro” do ambiente descrito. Os detalhes possibilitariam a mesma elaboração de uma cena a muitos leitores.

Em diversos momentos o autor afirma e reafirma em sua narrativa o quão entediante é Charles, marido de Emma. Mas em uma leitura mais crítica, é intensa a força que Flaubert coloca no texto para perpetuar visão que Emma tem de Charles. Na realidade é ela que, com sua volatilidade, está sempre enfastiada de tudo e todos a sua volta. A rotina a corrói. O dia-a-dia não lhe pertence. Seus desejos enxergam a realidade como algo ínfimo e inferior demais para ser vivido. Ela sonha com príncipes, riquezas e bailes…

Os amantes trazem-lhe a vida e o brilho de volta, brilho que ela parece nunca ter tido, já que, quando solteira, passava a própria existência de forma modesta no campo com seu pai viúvo. A troca de amores de Emma poderia também ser comparada ao que acontece hoje com algumas jovens mulheres que mudam de paixões ao sabor da vontade. O que não muda é que a maioria ainda o faz escondendo-se, atualmente em motéis, enquanto Emma fugia pela madrugada em direção aos quintais de seus desejos. Mas a diferença mortal é que, na época em que Emma foi criada, a possibilidade de liberdade e escolha ou troca era tão remota quanto afirmar que os negros vão dominar a riqueza do mundo e que o Brasil vai ser país de primeiro mundo. Impossível visualizar.

 Emma é uma mulher que busca um caminho diferente daquele em que foi preparada para percorrer. Mas como fazê-lo se toda mulher era preparada e empurrada para o casamento? O comportamento da personagem de Flaubert anuncia uma mudança que em breve colocaria o mundo macho de cabeça para baixo: o poder de escolha da mulher que sempre esteve paralisada pelas ordens dos homens. Emma não aceitava ser dominada, não era submissa, prendada ou fiel.

O tédio de Emma vai além da falta de graça e vida de seu marido, porque quase nada a satisfaz por muito tempo. Vaidosa, cheia de vontades, uma verdadeira mulher de fases, que ora alterna o ímpeto da paixão pela vida e pelos amantes, ora entra em um estado de letargia desconsolado com a existência. Nem o nascimento de sua filha faz com que o amor pleno tome conta de Madame Bovary, que procura incessantemente as paixões nas páginas dos romances – os quais chegou a ser proibida de ler por causa dos conselhos da sogra, que pouco a estimava.

As traições de Emma parecem ser percebidas por todos da pequena comunidade. Diferente das mulheres prendadas e dedicadas ao marido, ela é uma verdadeira consumista que afunda Charles em dívidas homéricas e irreversíveis. Dinheiro, luxo, sexo, chantagem. Em um século sem Aids, querer satisfazer desejos sem preocupações mortais era um capricho. Emma buscava amantes que pudessem levá-la aonde ela quisesse, já que sozinha ela não poderia ir. Ela queria ser quem não era – fenômeno hoje designado pela psiquiatria como Bovarismo.

Além da leitura de romances e da existência de idéias permanentes e pertencentes a um mundo paralelo que corrói apenas sua mente e traz desgraças para seu marido, Charles, Emma arquiteta cuidadosamente aventuras reais. Aventuras que se transformam em desconfortáveis paranóias a partir do momento em que ela começa a perder a noção da realidade e entra de vez no mundo de sonhos e desejos de uma vida repleta de emoções arrebatadoras. Um comportamento que demorou alguns anos para que se tornasse verdadeiramente perigoso, mas que, como uma cova funda, engoliu Emma e sua família de forma drástica e trágica, acidamente e detalhadamente descrito por Flaubert, grande estudioso da estupidez humana em uma época em que a medicina, a moral e a religião ainda causavam muitos erros, enganos e dores.


A arte de contar boas histórias

maio 31, 2007

  sangue-frio.jpg

 

Clarissa Athayde
Sônia Carreiro

A junção entre literatura e jornalismo já produziu grandes clássicos

O jornalismo literário é uma das grandes instituições americanas que fizeram o século XX. Os norte-americanos apreciam tanto este estilo que chegaram a criar uma categoria própria, também nomeada literatura de não-ficção, ensaio ou, como chamavam os autores dos anos 60, “novo jornalismo”.

Literatura e jornalismo, parceiros de longa data e testemunhas de grandes transformações, adquiriram intimidade e geraram o jornalismo literário. O estilo combina práticas jornalísticas e estruturas de narrativas da ficção. Às entrevistas e apurações são acrescentados toques de “irrealidade”, e o repórter literário pode assim se aprofundar na matéria e proporcionar um novo e fantástico modo de levar a notícia, que encantou os leitores e revolucionou o mundo da comunicação.

Em entrevista ao site “Canal da Imprensa”, o jornalista e escritor Sérgio Villas Boas, comenta que a mecanização da notícia levou a um abandono do jornalismo literário: “Há uma defasagem inclusive no ensino das faculdades de Comunicação. O jornalismo literário ficou restrito a trabalhos autorais, trabalhos de conclusão de curso, pesquisas ou a projetos patrocinados por instituições culturais. Assim, há cada vez menos divulgação sobre o gênero, menos o leitor toma conhecimento e, conseqüentemente, há menos desejo pelo tema”. Tal descaso, segundo ele, atesta a “falta de sensibilidade, filosofia humanista, arte, criação, técnica literária, atitudes em relação ao mundo”.

A professora de literatura brasileira Vadinéa Aparecida Detoni Corbini, na mesma direção, comenta que a literatura é importante principalmente quando é divulgada e todos têm acesso. “Ela é importante como linguagem porque a linguagem da literatura é oficial, artística, bastante nova, traz um universo novo e sempre está propondo uma nova forma de se ver o mundo”.

Vadinéia também destaca a importância de um jornal literário: “Acredito que um jornal literário permitiria que a massa, o povo, tivesse acesso à linguagem da literatura, dos poemas, contos, crônicas, capítulos de novelas literárias, entre outros. As pessoas não têm acesso à literatura. Não conhecem o prazer de um poema, de uma boa história bem escrita. Isso melhoraria a capacidade de reflexão, e unindo-se ao jornalismo seria ótimo”.

Mesmo muitas vezes pouco conhecido, o jornalismo literário agregou grandes nomes que fizeram história e provaram que a arte de narrar boas histórias ainda é valorizada e atrai muitos simpatizantes. Entre as pérolas desse novo modo de fazer reportagens se encontra o best-seller A Sangue Frio (1966), de Truman Capote. O livro ganhou o público no século XX e se tornou, mais que um romance literário, uma obra de arte da literatura.

Embora a imprensa tenha sempre feito uma parceria com a literatura, essa aproximação começou a ter regras e repertórios autônomos após o final da Segunda Guerra Mundial. O jornalismo literário ganhou um amplo público por meio de publicações como The New Yorker (até hoje o seu principal templo), Esquire, The New Republic, Rolling Stone, entre outras, e pelo texto de autores como Norman Mailer, Truman Capote, Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Joseph Mitchell, Lilian Ross e E. B. White, para citar apenas alguns nomes.

Hiroshima, de John Hersey, é considerado também um dos marcos iniciais. Existem muitos outros clássicos do gênero, tais como: O segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell; Música para camaleões, de Truman Capote; e Olhos na multidão, de Gay Talese.

O estilo retoma a idéia de que a arte de contar boas histórias é parte essencial do jornalismo. No momento em que a imprensa, por força das mudanças acentuadas da vida contemporânea, encontra-se em fase de procura de novos caminhos, uma volta às grandes reportagens do jornalismo literário poderá ser útil para se desenhar alguns novos modelos, principalmente para aqueles que acreditam que o futuro dos jornais e das revistas está na diferenciação pela qualidade (não só da informação e da análise, mas também do texto).

Gonzo jornalismo

O gonzo jornalismo é um formato extremamente peculiar de se fazer uma reportagem, desde a captação dos dados até a sua redação. Assim como o “Novo Jornalismo”, o gonzo é um movimento que carece de manifestos ou regras. Desta forma, existem várias definições para o estilo de reportagem criado e desenvolvido por Hunter S. Thompson, para quem a ficção não é um gênero melhor do que o jornalismo – e nem o contrário.

Thompson acreditava que tanto a ficção quanto o jornalismo são categorias artificiais, e que as duas, quando feitas da melhor forma possível, são caminhos diferentes para um mesmo fim: informar alguém sobre alguma coisa.


O velho e o peixe – “A batalha está apenas começando”

maio 31, 2007

mar-velho.jpg

Por Eliceli Bonan

            Desde o momento em que o velho Santiago sai à sua viagem em alto mar até o momento em que ele chega devolta à praia com o “peixe”, Ernest Hemingway descreve a luta de alguém que não se conforma com uma situação e corre atrás de melhorias.

Após oitenta e quatro dias sem pescar nada, o velho decidiu provar a si mesmo e aos seus companheiros de mar que não estava tão velho assim e que ainda podia pescar grandes peixes. Sozinho, mas persistente, Santiago, no octogésimo quinto dia, acordou cedo, como sempre fazia, e aventurou-se em alto mar, naquela que poderia ser sua última viagem. Muitos pescadores já haviam aventurado-se assim, em busca de um grande peixe, porém poucos, com um barco tão pequeno como o de Santiago, haviam voltado.

Logo no primeiro dia, a isca de sardinhas preparada por Manolin, o jovem que com tanta dedicação cuidava do nosso pescador, foi abocanhada. A luta de Santiago começou. Com tantos anos de experiência no mar, o velho percebeu que aquele não era um peixe comum, era um grande peixe e, tão logo chegou a noite, viu que vencê-lo não seria muito fácil.

Passou o primeiro e o segundo dia e o peixe ainda não havia desistido. Continuava a lutar por sua vida, fisgado, porém não parou em um único momento de puxar o barco do velho Santiago. Sentindo-se muito sozinho, em vários momentos o pescador lamentava por o jovem Manolin não estar com ele.

Três dias e o peixe finalmente veio a superfície. A luta, agora cara a cara com o velho, estava apenas começando. Ambos estavam cansados, mas nenhum “pensava” em desistir do outro. O peixe era forte e grande, mas mesmo com sua grande força não venceu a experiência de Santiago. Nosso velho venceu a luta, matou o peixe. Porém as dificuldades ainda não haviam acabado. Agora ele precisava chegar à praia. Haviam outros inimigos a serem enfrentados, os tubarões e estes não cederam à experiência do pescador. Santiago perdeu. Seu peixe foi devorado. Ele chegou sim à praia, porém sem o peixe, apenas com sua carcaça. Mas sua honra de bom pescador estava conservada.

Ernest Hemingway em O Velho e o Mar, este clássico da literatura mundial, remete o leitor a uma viagem pelos pensamentos e aflições humanas, pelo desejo de vencer, pela luta para chegar a esta vitória e, finalmente, convence-o de que nem sempre pode-se vencer tudo, mas que no fim sempre tira-se uma lição da batalha travada. O velho continuava forte.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.